É notícia desde a tarde de hoje (27) que foi, nas primeiras horas desta tarde, sequestrado o jurista e jornalista Ericino de Salema, junto à saída do Sindicato Nacional dos Jornalistas, na Avenida 24 de Julho, na Cidade de Maputo, onde havia ido almoçar, como refere o jornal electrónico CanalMoz na sua página.

Salema, também comentador residente do “Pontos de Vista”, programa que vai ao ar em hora nobre aos Domingos na Soico Televisão (STV), de acordo com o jornal acima citado, informou por mensagem telefónica ao editor do Jornal Canal de Moçambique, Matias Guente, que estava sofrendo ameaças.

Tais ameaças, segundo avança o CanalMoz, seriam o «resultado do teor dos seus comentários e abordagens algo críticas que têm realizado durante as emissões do programa “Pontos de Vista”» ao roçar assuntos cadentes e sensíveis da nossa sociedade, com destaque aos que envolvem a governação do dia.

Porque Salema manteria um encontro com o editor do Canal de Moçambique logo que saísse do almoço para que, na ocasião, o revelasse os contornos das ameaças que diz sofrer, dado ao sequestro, não foi possível, facto que leva alguns a concluir que há, no meio disso, dedo de pessoas ligadas à política.

1. A Frelimo e seu Governo como bodes expiatórios:

Conforme mostra a experiência, quando algo de mal acontece na sociedade, as pessoas têm a aptidão natural de procurar o(s) culpado(s) a quem chamamos de bode(s) expiatório(s). No caso moçambicano, tratando-se de morte e perseguição de críticos entre jornalistas, políticos, académicos, a Frelimo e o seu Governo aparecem como os primeiros e maiores suspeitos. São os naturais bodes expiatórios de muitos.

Tal constatação talvez encontre a sua razão de ser na medida em que a Frelimo é quem dirige o aparato governativo do país, sendo que as críticas lançadas por proeminentes figuras da nossa praça, concorrem para a sua impopularidade como partido e Governo, e desta forma, dar campo para o brilho dos partidos da oposição, que nos últimos anos, pelo menos empiricamente, veem ganhando mais e mais adeptos!

Presentemente, no caso do rapto de Salema são tantas as vozes que acusam veementemente a Frelimo e o seu Governo de responsáveis por essa empreitada, isso devido às duras críticas que aquele, usando do direito à liberdade de expressão, habitualmente tem tecido aos últimos. Há, ainda, quem aponta como causa as duras críticas que este tecera ao comportamento do filho do Presidente Nyusi, o jovem Florindo.

2. Do outro lado do sequestro: existirá?

A meio a tantos que acreditam que o sequestro de Salema está directamente ligado aos comentários ou às abordagens contundentes que tem vindo a realizar aos Domingos no Programa “Pontos de Vista”, há quem não descarta a hipótese de se tratar de um acto forjado com o intuito de fragilizar a Frelimo e o seu Governo, que tem assistido o desgaste de sua imagem devido as dívidas ocultas, em pleno ano eleitoral.

O outro lado é dessas pessoas que acreditam que Salema, em convénio com outras forças da sociedade moçambicana hostis a Frelimo, pretende impopularizar o nome deste partido que, como sempre, tem sido apontado como o bode expiatório de todas as mortes como atentados àqueles que criticam a sua governação. Deste modo, expurgam, desde logo, a possibilidade de ter sido a Frelimo quem mandatou.

Acrescentam, ainda, o facto de ser a STV a maior preocupada na cobertura deste episódio, a mesma que, não raras vezes tem “entrando em choque” com os interesses da Frelimo, até porque muito recentemente o partido, em Nampula, apareceu a acusar esta estação de televisão de haver violado a Lei Eleitoral ao difundir a entrevista de Afonso Dhlakama, líder da Renamo, em pleno dia de eleição intercalar da 2ª volta.

3. Considerações:

Felizmente as informações indicam que Salema encontra-se bem, depois de resgatado inconsciente na estrada circular de Maputo! Sem tomar qualquer partido, acredito que situações como o rapto de pessoas inocentes que, se culpadas, apenas o são por emitir suas opiniões valendo-se do direito à liberdade de expressão, só ajuda a manchar o nome do nosso país além-fronteiras, como lugar inseguro de se viver.

Por fim preocupa-me, também, o trabalho encabeçado pelos lambe-botas ao serviço da Frelimo, pagos ou voluntários, cuja função é deturpar o teor dos acontecimentos e informações que se dão no país. Despoletado o caso Salema, à semelhança dos que sugerem o outro lado deste rapto, nos próximos dias é um dado que os senhores de “consciência vendida/oferecida” farão o seu trabalho de sempre: deturpar!

 

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